Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Hermenauta, o imbecil
O senhor Nils-Axel Mörner, chefe do departamento de Paleogeofísica e Geodinâmica da Universidade de Estocolmo até 2005, presidente da Comissão de Mudanças do Nível do Mar da INQUA (International Union of Quaternary Research) durante 1999-2003, é, segundo Reinaldo Azevedo, a maior autoridade mundial em aquecimento do mar. Sabem o que ele acha? Contrariando o atual senso comum, diz ele que o nível do mar não se elevou nos últimos 50 anos. Ocorre que ele é também um admirador da técnica chamada dowsing.
Dowsing, em português, é radiestesia. Eu não sei o que é, mas o Hermenauta me esclarece: trata-se de uma técnica para captar radiações de diversas origens, incluindo objetos inanimados (águas subterrâneas, por exemplo) e até mesmo espíritos. Conclusão do Hermenauta: o senhor Mörner, citado como especialista por Reinaldo Azevedo, é decerto um desequilibrado e charlatão. Entenderam? Vou explicar: o senhor Mörner é um cientista. Mas ele é um admirador da radiestesia. Entre suas inúmeras utilidades, a radiestesia (alega-se) pode ser usada para captar radiações de espíritos. Logo, o senhor Mörner é um desequilibrado e charlatão. Ora, mas ele acredita em espíritos? O Hermenauta não sabe. Ele já acreditou em espíritos? O Hermenauta também não sabe. Para que o senhor Mörner defende a radiestesia? Não sei, tampouco sabe o Hermenauta. Mas se o senhor Mörner é admirador de uma técnica que, segundo a Wikipedia, pode ser usada para procurar espíritos, ele é com certeza um desequilibrado. E charlatão. Percebem a causalidade gritante?
Dados os fatos, vi-me compelido a botar um pouco de bom senso na cabeça do Hermenauta. Eis o que lhe argumentei:
«Vê, eu não tenho opinião formada a respeito do aquecimento global. Há cientistas a favor e há cientistas contra. A maior parte é a favor? Talvez. Isso prova algo? É certo que não. O mesmo vale para a elevação do nível do mar. A verdade é que o Hermenauta também não sabe se o aquecimento global e a elevação do nível do mar são causados pelo homem ou não. E, por favor, este gráfico no fim do post* é um golpe baixo, de vez que ninguém, repito, NINGUÉM, vai se dar ao trabalho infernal de tentar checar seus dados. Usar gráfico em discussão é golpe baixo. Com relação a esse sujeito, Nils-Axel Mörner, se ele é um “desequilibrado” e “charlatão”, o que podemos pensar da INQUA e da Universidade de Estocolmo? Seriam centros de charlatanice? (Não que isso me importe)»
* O Hermenauta ilustrou o fim de seu post com um gráfico, todo ele muito científico, para provar que o nível do mar está de fato aumentando.
Eis como o Hermenauta me respondeu:
«“A maior parte é a favor? Talvez. Isso prova algo? É certo que não.” Você já ouviu falar
Dado que o Hermenauta recusou minha tréplica em seu blogue fedorento, publico-a a seguir:
«Hermenauta, você tem razão. Parece que me precipitei ao dizer que o fato de a maioria ser a favor de algo não prova a verdade desse algo. De fato, peguei aqui da estante o Logik der Forschung (1973) e, no capítulo “Causalidade, Explicação e Dedução de Predições”, Popper diz o seguinte: “Assim sendo, quando a maioria dos pesquisadores declararem válida uma teoria qualquer, a maioria mesma é prova de que a teoria é verdadeira”. Outro a corroborar as idéias do Hermenauta é Kuhn, que, no seu The Structure of Scientific Revolutions (1962), diz o seguinte: “A distinção entre fato e teoria é artificial. O que importa é que, quando a maioria dos cientistas levanta os bracinhos e apóia uma teoria qualquer, ela se torna um paradigma e, logo, verdade” (Tive que traduzir os dois trechos, porque se o Hermenauta lê tão bem em inglês e alemão como escreve mal em português, não entenderia nadinha). Vê-se, pois, que o Hermenauta estava certo: o aquecimento global está provado porque a maior parte dos cientistas acha que ele é verdade. No próximo congresso sobre aquecimento global, os cientistas se reunirão e votarão, por maioria simples, o que ainda é verdade e o que não é. Com relação aos gráficos, cumpre dizer que não, gráficos não são golpe baixo. Apenas quanto utilizados em discussões comezinhas de blogues intestinos e malcheirosos como o seu.»
Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
Millennium
De tempos em tempos, somos confrontados com a atroz presença do Mal. O que fazer diante dele? Como compreendê-lo? Seria ele a disfunção essencial do ser humano? Proviria ele do homem ou, ao contrário, ser-lhe-ia anterior? A um católico, a questão pode ser colocada da seguinte forma: se Deus é todo-poderoso e providente, por que existe o Mal? A Igreja responde: Deus não permitiria o mal se do mesmo mal não tirasse o bem.
Para religiosos e agnósticos, no entanto, quais sejam as respostas que dêem às perguntas acima, fato é que o Mal parece, por vezes, dotado de uma dimensão própria. É difícil concordar que se trata, pura e simplesmente, da ausência do bem. Ora, se não bastasse a vida cotidiana, que lembra aos mais afortunados a presença do Mal por jornais e noticiários, eis que uma série de TV faz questão de esfregá-lo em nossa cara. Trata-se de Millennium, de Chris Carter, mesmo criador de Arquivo X.
Ao ouvir comparações entre as duas séries, é provável ouvirmos que a primeira trata de questões sobrenaturais – OVNIs, vampiros, lobisomens e monstros em geral –, ao passo que à segunda resta, apenas, os mistérios naturais. Ora bem. Isso seria negar qualquer dimensão sobrenatural ao Mal, tal qual o vemos em nossas vidas. Em verdade, creio ser, dentre as duas, Millennium a que mais nos convida a refletir sobre o mundo sobrenatural. Digamos ser pouco provável que você encontre um alienígena em algum momento da vida. Já um pai de família insuspeito, que estuprou e engravidou as filhas e, pasmem, ainda criou seus filhos-netos, isso você pode encontrar – e, se lê os jornais, já encontrou, basta lembrar do amável Joseph Fritzl. Este exemplo compõe a trama de um dos episódios da primeira temporada de Millennium. A diferença é que, na história real, escândalo recente nos jornais de todo o mundo, o pai de família guardava a filha estuprada e os filhos-netos num porão. O Mal na vida real é mais atroz do que o que vemos em tevê.
Millennium nos conta a história de Frank Black, ex-agente do FBI especialista em crimes hediondos. Após décadas de trabalho a tentar pensar como os criminosos, Black logrou bela vitória. Sua mente desenvolveu a capacidade de ver como eles vêem. Some-se a isso um vasto conhecimento do modus operandi de um assassino, e voilà, eis um grande investigador. Desde que se ausentou da polícia federal, Black passou a trabalhar com o Millennium, misterioso grupo de ex-agentes que presta «consultoria» às polícias locais. Entre os monstros que Black e o Millennium investigam – todos bem reais –, encontram-se muitos justiceiros, assassinos que crêem estar purificando a humanidade de seus pecadores. Alguns são religiosos, outros descrentes no sistema judiciário, e há os que são loucos mesmo.
A série fornece terror e suspense de bom gosto, sem apelação. Na realidade, se alguma crítica pode ser feita neste aspecto, deve tomar o sentido oposto. Millennium é a série de tevê mais anticomercial que já vi em minha vida. E, sim, eu já vi muitas. Esqueça perseguições de carros. Esqueça mulheres lindas pouco agasalhadas – há uma mulher linda, a esposa de Black, mas ela está sempre vestida. Tampouco vemos as personagens em festas ou confraternizações. Não há, enfim, aquele momento do seriado no qual o romance – ou a sua possibilidade – surge entre as personagens. Não. Há apenas o Mal. De um lado, o Mal superlativo personificado em assassinos, e, de outro, meia dúzia de homens bons tentando contê-lo.
No cômputo geral, minha avaliação é muito positiva. Tenho, é claro, algumas críticas. Há algumas questões interessantes que o seriado não explora. Em primeiro lugar, a relação entre Black e sua esposa. É de se supor que haja brigas entre o casal. Se até quando o esposo tem profissão normal, como mecânico ou publicitário, a mulher reclama e lhe cobra, o que dizer de alguém cujo trabalho é absolutamente irregular, arriscado e desgastante? «Querido, como foi o trabalho hoje? ─ Ah, corriqueiro, o assassino serial que eu prendi só esquartejava as crianças, não era como o último que as estuprava antes e depois comia suas vísceras». Como eu disse, é de se supor pelo menos uma briguinha.
Em segundo lugar, o seriado não explora a relação entre o grupo Millennium e as forças do Estado. Imagino que policiais não se sentiriam muito à vontade com um grupo privado que, a despeito de ser composto por ex-agentes, faz o serviço dos próprios policiais muito melhor do que eles mesmos. É de se supor invejas e desentendimentos, para dizer o mínimo. Em terceiro e último lugar, o seriado não deixa claro como o grupo Millennium paga suas contas. Acaso é trabalho voluntário? E, se não, quem os contrata?
Somados os prós e os contras, a sugestão permanece de pé. Compre a primeira temporada de Millennium e assista uma grande série, recheada de suspense e muita, muita presença do Mal. O risco é, depois, você querer se tornar policial ou se converter a alguma religião. Mas, contra qualquer uma das duas opções, a covardia costuma vencer.
(Mais informações: Arquivo Confidencial)
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Teoria e ciência políticas
Se é possível falar de continuidade e distinção na ciência política hoje, nem por isso é possível desconhecer a profunda tensão na articulação entre as diferentes aproximações dentro da disciplina. Essa tensão se mostra sobretudo na clivagem entre ciência política (ou teoria empírica) de um lado e teoria ou filosofia políticas de outro, e revela diferentes aproximações método e epistemológicas. Não raro, teoria e filosofia políticas são referidas como «teoria normativa» como uma forma de distinguir suas preocupações e valores da «teoria empírica», isto é, a ciência política propriamente dita. Essa distinção se acentuou em uma época na qual as agendas behavioristas moldaram as fronteiras disciplinares e refletem a influência de visões neo-positivistas. Acusa-se a pesquisa em teoria política de que não há parâmetros para julgar seus resultados e de que eles não trazem nada de novo. Enfim, teoria e filosofia políticas seriam vistas como distintas da ciência política empírica – algo com o que autores de ambos os lados concordam.
Para Andrew Vincent,
O balanço parece ser negativo para a teoria e filosofia políticas. Suas pesquisas não trazem nada de novo, não podem ser julgadas de maneira adequada e seus maiores representantes crêem – coitados! – dialogar com Platão e Aristóteles. É claro que o esboço da situação, apresentado desta forma, é caricatural. Para começar, acho que a maior parte dos cientistas políticos que fazem pesquisa empírica reconhecem a importância da teoria. Seja como for, é possível encontrar defesas da teoria política normativa honestas e razoáveis.
Em seu pequeno artigo Political Theory, Political Science, and Politics (2002), Ruth Grant faz uma dessas defesas. Ela parte de uma constatação: a teoria política permanece obstinadamente filosófica. Tomemos, pois, a premissa daqueles cuja queixa é que a teoria política não pertence a uma disciplina devotada ao estudo científico e sistemático do fenômeno político, já que o conhecimento adquirido pela pesquisa em teoria política não pode ser validado ou falseado.
Grant responde tal objeção de três formas. (1) A primeira é aceitá-la nalguns aspectos: não há necessidade de defender a pesquisa em teoria política porque sua missão essencial não é a pesquisa, mas a educação. Na teoria política (e ciências humanas em geral), a atividade de ensinar e a de pesquisar são quase idênticas. (2) A segunda é argumentar que tanto as ciências «duras» como as ciências sociais são, na realidade, mais moles do que parecem. Há, é certo, descoberta de novos fatos, mas os grandes avanços na ciência são freqüentemente avanços de interpretação, que nos permitem explicar – de forma mais coerente – um grupo de fatos já conhecidos. (3) A terceira é reconhecer o caráter distintivo da pesquisa em ciências humanas
Uma das preocupações da teoria política seria a do julgamento. Para Grant, julgamentos podem ser refinados e melhorados. Parece difícil a algumas pessoas concordar com isso, de vez que mesmo julgamentos morais são tratados como questões de gosto individual. Mas que as pessoas discordam é coisa que se sabe há muito tempo; isso não precisa nos levar à conclusão epistemológica de que o julgamento moral é impossível.
Grant continua e afirma que, devido a seus métodos interpretativos e históricos, a pesquisa em ciências humanas é conservadora. É conservadora no sentido óbvio de que depende da conservação do passado, dos registros do pensamento e da ação humanas. Mas também o é em sentido menos evidente. Estudar os produtos do pensamento e imaginação humanos durante a história produz, é claro, uma apreciação da imensidade das conquistas humanas. Porém, produz também um reconhecimento dos limites da compreensão humana e de suas capacidades. Torna-se aparente a idéia de que não há nada de novo sob o sol, e, para Grant, esta idéia limita o impulso do utopismo científico – assim como o limita o conhecimento histórico em geral. (Eu não hesitaria em somar ao científico o utopismo político.)
O artigo de Grant faz uma defesa interessante da pesquisa em teoria política e seu caráter distintivo. Os parâmetros para julgá-la não são, por certo, os mesmos utilizados na pesquisa empírica. Mas eles existem. É importante que teóricos políticos reconheçam a validade das pesquisas empíricas, assim como é importante que cientistas políticos reconheçam a necessidade da pesquisa em teoria política. Se não por outras razões, basta dizer que a convivência assim o exige: em 2002, nos EUA, 81% dos teóricos políticos faziam parte de departamentos de ciência política.
Terça-feira, 17 de Março de 2009
Os meninos mimados
O século XIX pariu o homem-massa. Que aspectos apresenta a sua vida? De início, uma facilidade material incrível. Diz o autor: «O homem médio de qualquer classe social encontrava o seu horizonte econômico mais alargado de dia para dia. Cada dia acrescentava um luxo novo ao repertório do seu standard vital. Cada dia a sua posição era mais segura e independente do arbítrio alheio. O que antes se teria considerado um benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino, tornou-se um direito que não se agradece, mas se exige. (...). A essa facilidade e segurança econômica acrescentem-se as físicas: o comfort e a ordem pública. A vida corre sobre cômodos carris, e não há verossimilhança de que intervenha nela algo de violento e perigoso.».
A vida se apresentou a esse homem como que isenta de impedimentos. Mesmo a vida pública não lhe oferece limitações. Todos os homens são legalmente iguais. Esse cenário, concebido pelo século XIX, possui três princípios fundadores: democracia liberal, experimentação científica e industrialismo, os dois últimos podendo se resumir à técnica.
O mundo que rodeia o homem-massa não lhe limita em nenhum sentido, não lhe põe contenção alguma, pelo contrário, atiça seu apetite e lhe faz crer que tudo será ainda melhor no futuro. O mundo de fins do século XIX e início do XX não tem só perfeição e amplitude, mas sugere a seus habitantes enorme segurança sobre seu futuro: amanhã o mundo será ainda mais rico e mais amplo. O homem-massa, ao se deparar com este mundo tão perfeito e ao pensar que amanhã ele será ainda melhor, imagina que a própria natureza o produziu, ignorando todos os esforços pressupostos à sua criação. E como isso se reflete na psicologia do homem-massa? Ortega y Gasset aponta dois traços: a livre expansão dos seus desejos vitais e a ingratidão radical pelo que tornou possível a sua fácil existência. Esta é, diz o autor, a psicologia do menino mimado.
Pergunto então aos meus já fatigados botões: o que faz com que tantos jovens de classe média vociferem contra a Igreja no recente episódio de Alagoinha? A maior parte nem mesmo é católica. Estariam eles tão seguros de que um feto não é um ser humano? Saberiam eles dos reais riscos que a menina de 9 anos corria devido à gravidez? Meus botões, é certo, consideram minhas perguntas indiscretas e sem qualquer cabimento, não vendo nenhuma relação entre a psicologia que motiva esses jovens e aquela própria ao homem-massa. E tem mais, dizem-me meus botões, os jovens que vociferam contra a posição da Igreja não são meninos mimados, a despeito do que eu queira insinuar. Que fique muito claro, dizem eles, não há qualquer relação entre um menino mimado e um jovem que enxerga num par de fetos um presente incômodo, a que se pode aceitar ou rejeitar, como lhe convier.
Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
A propósito de Foucault
«Como proteger criminosos»? Esse foi o título que deu Mauro Chaves à sua coluna, em 26 de maio de 2007, n’O Estado de S. Paulo. Pois bem, como protegê-los? Segundo o jornalista, uma boa maneira era a Resolução nº 214 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), a qual estabelecia que os aparelhos de fiscalização de excesso de velocidade deveriam estar sempre visíveis e acompanhados de sinalização.
Estranhou-me que um texto na segunda página d’O Estado – espaço, pois, de grande destaque – pudesse ser tão abertamente antiliberal. Talvez, mais do que qualquer outra coisa, isso demonstre meu desconhecimento do jornal paulista, mas não importa. Fato é que, em sua coluna, Mauro Chaves chamava a medida do Contran de «proteção deslavada aos criminosos», e era quase possível sentir seus tremeliques de gozo ao imaginar uma época em que todas as estradas e ruas das cidades tivessem a cobertura de radares. Se hoje isso não era possível, dizia ele, então que os escassos radares fossem instalados sem qualquer sinalização, para que os criminosos do volante nunca soubessem se estavam ou não sendo vigiados. Levado às últimas conseqüências, o argumento defendido por Chaves era o de que só têm a temer a vigilância aqueles que não seguem as regras; quem não deve, não teme.
Como bem escreveu Joel a respeito da recente lei seca (aqui), leis podem ter bons objetivos e ser eficazes ao atingi-los, mas isso não faz delas boas leis. Se a tecnologia permitisse a vigilância absoluta e irrestrita da vida humana com vistas ao combate ao crime – por favor, nada disso ocorre hoje –, e uma lei autorizasse tal vigilância, ela não seria boa, a despeito de sua eficácia e boas intenções.
Dois parágrafos atrás, escrevi que a postura adotada por Mauro Chaves era antiliberal. Será mesmo? Será que a vigilância a que estamos sujeitos hoje é um efeito colateral, um «erro de percurso» de nossas democracias liberais? Ou, ao contrário, não seria ela a parte obscura do processo de consolidação dessas democracias? Esta última opção é, evidentemente, a preferida por gente que perlustrou Vigiar e Punir e adora afetar um ar fatalista quando fala de nossa época. «Sim, a modalidade panóptica do poder é o lastro da sociedade moderna», diz o universitário blasé e drogadicto.
Foucault é um autor que desperta ressalvas às esquerdas e às direitas. Há quem o considere um reacionário antiiluminista – temos, desse lado, retardados do porte de um Noam Chomsky e um David Graeber – e quem esteja convicto de suas posições libertárias e esquerdistas – como a dupla afásica Negri e Hardt.
Eu não sei. Li alguma coisa de Foucault, levado, como tantos outros, pela influência de professores empanturrados de biopoder e mecanismos disciplinares. A julgar pelo que li, aproximá-lo de idéias conservadoras é uma estupidez e, soit dit en passant, tal aproximação ofenderia tanto ele como os conservadores.
A visão sombria de Vigiar e Punir, que, se não é a de um progressismo barato, não é tampouco reacionária, deve ser colocada em perspectiva com aquela presente
Não há dúvida de que o filósofo francês recebe muito mais atenção do que deveria. Na seção de filosofia de qualquer livraria, a parte que cabe a Foucault e seus comentadores só perde, talvez, para a que cabe a Platão. Não tenho dúvidas, também, de que pouco ou nada sei de sua obra. Mas sempre, ao ver alguém a lançar brados a favor de mais vigilância, penso se Foucault não teria um pouco de razão. Só um pouquinho.
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
A avarícia
Eugénie Grandet, quinto tomo dos Études de moeurs au XIX siècle, foi escrito por Balzac em
Ainda que o romance leve o título de Eugénie Grandet, difícil é não se levar pela idéia de que é seu pai, o velho Grandet, a personagem principal. Ao longo da narrativa, acompanha-se a transformação de ambos: a filha, descobrindo o amor por seu primo, deixa de seguir cegamente as ordens paternas e oferece todo seu ouro ao amado; o segundo, até então um pai de família rígido e poderoso, é tomado pelo demônio da avarícia e, pode-se dizer, enlouquece de amor pelo ouro.
É importante atentar para a história do pai e sua transformação. Em 1789, o viticultor Grandet já gozava de posição confortável. Quando a República colocou os bens do clero à venda, Grandet acabava de esposar a filha de um rico comerciante. Munido de sua própria fortuna e do dote, ele se apropriou – quando não legitimamente, ao menos legalmente – dos mais belos vinhedos de Saumur, de uma abadia e de algumas fazendas. Passando por republicano e patriota aos olhos dos habitantes locais, seu prestígio o conduziu à prefeitura de Saumur, cargo do qual foi destituído por Napoleão. Grandet, enfim, soube aproveitar bem seus capitais e as oportunidades que se lhe mostraram, e, economizando tudo, «mesmo o movimento», tornou-se o homem mais poderoso da região.
A avareza não o domina por completo no início do romance – ou, ao menos, a dominação não é desvelada em seu todo pelo narrador. O zelo extremo que dedica aos negócios e a satisfação que deles usufrui não parecem de todo condenáveis, porquanto não têm como fim a fruição dos prazeres materiais, pelo contrário: ao sermos convidados à casa da família Grandet, deparamo-nos com a austeridade que lá domina. Nada de luxos ou excessos. O que parece dominar Grandet é tanto o envaidecimento pelas próprias posses como o encanto pelo poder que elas lhe dão.
O avarento tem apego excessivo às riquezas. Sua vida se apóia em dois sentimentos: o amor-próprio e o interesse, o segundo se originando do primeiro e os dois, por sua vez, constituindo diferentes partes do mesmo egoísmo. Grandet decerto era um avaro, mas é apenas quando sua filha, apaixonada pelo primo, dá-lhe todo seu ouro, que o deslumbramento de Grandet pela riqueza (ou pelo ouro mesmo) se torna maior do que aquele que tinha pelo poder proveniente da riqueza.
Em Balzac, personagens como Grandet povoam a província francesa do século XIX, e a situação em Paris não é melhor. O ódio intenso que ele dedicou à burguesia não era, segundo Carpeaux, senão conseqüência de sua atitude ideológica: era monarquista, admirador da antiga aristocracia e católico conservador. Se essa atitude não está toda presente
«Os avaros não acreditam em uma vida além, o presente é tudo para eles. Esta reflexão projeta uma terrível luz sobre a época atual, onde, mais que em nenhuma outra, o dinheiro domina as leis, a política e os modos. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira a minar a crença numa vida futura sobre a qual o edifício social se apoiou por mil e oitocentos anos. Agora, o caixão é uma transição pouco temida. O futuro, que nos esperava além do réquiem, foi transposto para o presente. Chegar per fas et nefas [por todos os meios, lícitos e ilícitos] ao paraíso terrestre do luxo e dos gozos vaidosos, petrificar seu coração e macerar o corpo em vista de possessões passageiras, como outrora sofríamos o martírio da vida em vista dos bens eternos, este é o pensamento geral!»